Muito antes de criar a Coral Mosaicos, Sônia Meire Manzano trabalhava com comunicação e administrava um jornal no interior de São Paulo. Foi nesse período que um encontro inesperado com uma arte milenar mudaria os rumos da sua vida.
O que começou como uma descoberta curiosa se transformou em paixão, depois em profissão e, anos mais tarde, em uma trajetória reconhecida dentro e fora do Brasil.
Hoje, em meio a uma nova fase no Artesanou, Sônia relembra os acontecimentos que marcaram sua trajetória dentro e fora do artesanato.
O dia em que o mosaico entrou na vida de Sônia
A história da Coral Mosaicos começou de forma improvável. Na época, Sônia vivia uma rotina intensa à frente de um jornal semanal no interior paulista. Em meio às demandas do trabalho, buscava pequenas pausas para aliviar o estresse do dia a dia.
Ao relembrar aquele período, ela conta que a descoberta aconteceu quando procurava uma distração para sair um pouco da correria.
“Descobri o mosaico quase por acaso. Andava bem estressada com as atividades do meu jornal e fui me distrair na única banca da cidade.”
Entre as opções disponíveis, uma chamou sua atenção imediatamente. “Lá vi uma revista com o título de Mosaico e, pela primeira vez, tive contato com essa arte milenar. Foi paixão à primeira vista.” Mesmo sem conhecer a técnica ou ter acesso a materiais específicos, decidiu experimentar.
Quando alguns restos de azulejo deram início à Coral Mosaicos
Depois de descobrir o mosaico, Sônia começou a procurar formas de colocar em prática aquilo que havia visto nas páginas da revista.
Sem cursos, internet ou materiais especializados à disposição, ela buscou alternativas onde fosse possível. “Fui até um anunciante do jornal que vendia material de construção e pedi restos de azulejos ou o que ele tivesse.”
Foi com esse material improvisado que surgiram as primeiras peças. “Assim, com quase nenhum material ou informação, comecei a fazer alguns toscos vasinhos.”
Os primeiros trabalhos ainda estavam longe da técnica que desenvolveria anos depois, mas já ocupavam um espaço cada vez maior na sua rotina.

No ano seguinte, a vida de Sônia passou por várias mudanças. Ela vendeu o jornal, se casou e se mudou para São Paulo. A mudança ampliou o contato com materiais, referências e pessoas ligadas ao mosaico. “Um mundo encantado se abriu.”
Feiras, revistas especializadas, lojas de materiais e novas oportunidades de aprendizado ajudaram a aprofundar seus conhecimentos e aperfeiçoar o trabalho.
O ateliê que nasceu entre turistas e dias de chuva em Ubatuba
Em 2002, Sônia se mudou para Ubatuba. Foi lá que nasceu o primeiro ateliê da Coral Mosaicos. Além da produção das peças, ela passou a oferecer cursos para moradores, turistas e veranistas interessados em aprender a técnica.

As aulas acabaram atraindo pessoas que buscavam atividades para fazer durante as férias ou nos dias de chuva, bastante comuns na região. Ao mesmo tempo, as vendas começaram a ganhar espaço.
Peças produzidas por Sônia passaram a ser comercializadas em lojas de artesanato da cidade, permitindo que o trabalho chegasse a novos públicos. Ainda era um crescimento gradual, mas o mosaico ocupava cada vez mais espaço em sua vida.
O reencontro de Sônia com a sua maior paixão
Em 2005, a trajetória de Sônia tomou um rumo diferente. Ela recebeu o convite para assumir a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Ubatuba e deixou o ateliê em segundo plano.
Durante oito anos, dedicou-se integralmente à nova função. O afastamento do mosaico, porém, teve um custo que ela só perceberia mais tarde.
Com o passar do tempo, vieram as crises de ansiedade e o desgaste emocional. Foi durante esse período que ouviu um conselho que jamais esqueceria.
Ao falar sobre aquele momento, Sônia lembra das palavras de uma médica que acompanhava sua saúde: “Volte para os seus mosaicos, eles serão sua cura!” A frase ficou marcada.
Em 2012, ela decidiu retomar o ateliê, voltar a produzir peças e reencontrar a atividade que havia descoberto mais de uma década antes. O retorno não demorou a mostrar que aquela escolha fazia sentido.
Como uma sugestão vinda do Japão levou a Coral Mosaicos para a internet
Pouco tempo depois de retomar o trabalho com mosaicos, uma conversa familiar abriu um caminho que mudaria novamente a trajetória da Coral Mosaicos.
Sua enteada, que mora no Japão, conhecia o potencial do trabalho que Sônia desenvolvia e fez uma pergunta simples: “Por que você não abre uma loja virtual no Elo7?”




Na época, a resposta foi imediata. “Elo7? O que é isso?” A enteada explicou como funcionava a plataforma e contou que conhecia vendedores que obtinham bons resultados por lá.
A ideia despertou a curiosidade de Sônia. Foi assim que, em fevereiro de 2013, nasceu a loja online da Coral Mosaicos.
As vendas começaram a surgir rapidamente e, junto com elas, veio uma das partes que ela mais passou a apreciar no trabalho. Ao longo dos anos, cada pedido trouxe uma nova história.
“Eu fui me encantando com a prática de receber mensagens dos clientes, cada um de um canto do país, cada um com uma ideia de personalização, com uma necessidade, com uma preferência.”
Os clientes que ajudaram a criar mais de mil produtos
Muitos dos produtos que fizeram sucesso na Coral Mosaicos nasceram diretamente das conversas com os clientes.
Sônia criava uma mandala em determinados tons e alguém pedia uma nova combinação de cores. Produzia uma caixa decorada e logo surgia uma sugestão diferente. Em outros casos, precisava adaptar para o mosaico uma ideia enviada pelo próprio cliente.







Ao longo dos anos, esse processo se repetiu inúmeras vezes. “E assim foram nascendo os produtos.” O resultado surpreende até ela. “Nesse ritmo, ao longo de 13 anos de loja, surgiram mais de mil produtos.”
Mais do que um catálogo extenso, a Coral Mosaicos acabou construindo uma coleção de peças moldada pelas histórias, preferências e pedidos recebidos ao longo do caminho.
Por que uma caneta passou a aparecer nas fotos dos produtos?
Em mais de uma década de vendas online, Sônia acumulou quase 1.500 avaliações. Segundo ela, praticamente todas foram positivas. A única exceção surgiu por um motivo inesperado.
Uma cliente reclamou do tamanho de uma mandala porque imaginava que a peça fosse maior do que realmente era. A situação levou Sônia a criar uma solução simples e eficiente.
Ao relembrar o episódio, ela conta: “A partir desse dia, passei a colocar uma caneta em pelo menos uma das fotos de cada produto produzido, para mostrar a dimensão do produto ao simples olhar do cliente.” A mudança eliminou dúvidas e passou a fazer parte da apresentação dos produtos da loja.
As cartas escritas à mão que acompanharam 13 anos de vendas
Se existe algo que atravessou toda a trajetória da Coral Mosaicos, foi a atenção dedicada aos clientes. “Desde a primeira venda até a última que fiz nesses 13 anos de Elo7, sempre escrevi uma cartinha à mão e enviei um pequeno mimo de mosaico.”
O gesto simples acabou se transformando em uma marca registrada do seu atendimento e também um dos motivos mais citados pelos clientes nas avaliações da loja.
Além dos elogios às peças, muitas mensagens destacavam justamente o cuidado presente em cada etapa da compra. Para Sônia, o atendimento sempre foi tão importante quanto o produto entregue.
As histórias que confirmaram que Sônia Manzano estava no caminho certo
Ao longo dos anos, centenas de pedidos passaram pela Coral Mosaicos. Alguns, porém, ocuparam um lugar especial na memória da artesã. Uma dessas histórias aconteceu logo nos primeiros anos da loja online.
A cliente era do Paraná e havia comprado dois produtos: uma mandala e um quadro de São Francisco. Depois de receber a encomenda, ela entrou em contato novamente.

“Ela ficou tão encantada que me enviou em particular um grande texto elogiando o meu trabalho, o atendimento, e disse que iria pedir ao filho para levá-la a Ubatuba numa oportunidade para poder me conhecer pessoalmente.”, conta Sônia.
A mensagem teve um significado especial. “Foi o sinal que eu precisava para saber que estava no caminho certo!”
Outra história marcante também começou com uma cliente paranaense. Desta vez, a encomenda envolvia uma representação de Iemanjá em mosaico.

Segundo Sônia, a peça agradou tanto que novos pedidos vieram logo em seguida. Entre eles, um dos trabalhos mais desafiadores que já executou.
Ao lembrar daquele projeto, ela explica: “Ela me encomendou o meu maior desafio até hoje: uma mandala de 80 centímetros com a figura mítica de São Jorge.”

“Foi quase um mês de trabalho, mas o resultado ficou fantástico e ela simplesmente amou.” A cliente continuou comprando ao longo dos anos e acabou se tornando uma das pessoas mais presentes na trajetória da Coral Mosaicos.
Das mandalas à Mondial Art Academia
Enquanto a loja crescia e conquistava clientes em diferentes regiões do país, o trabalho de Sônia também começou a receber reconhecimento em outros espaços. Uma das conquistas mais importantes aconteceu em 2022.
Ao recordar esse momento, ela conta: “Recebi a notícia que havia sido selecionada pela Mondial Art Academia e me tornaria a primeira mosaicista do Brasil a fazer parte do seu rol de artistas.”
A instituição francesa reúne artistas de diferentes países que se destacam pela qualidade técnica e criativa de suas obras. Para alguém que havia começado utilizando restos de azulejos e aprendendo de forma autodidata, o reconhecimento teve um significado especial.
Pouco tempo depois, outra homenagem reforçou a importância da sua trajetória. Sônia recebeu uma menção honrosa da Câmara Municipal de Bastos, sua cidade natal, em reconhecimento ao trabalho desenvolvido ao longo dos anos.
As homenagens vieram em momentos diferentes, mas carregavam uma mensagem semelhante: aquela paixão descoberta por acaso em uma banca de jornal havia alcançado lugares que ela jamais imaginou quando produziu seus primeiros mosaicos.
A segunda grande perda em menos de três dias
Em um curto espaço de tempo, Sônia enfrentou um dos períodos mais difíceis da sua vida. No dia 29 de abril, sua mãe, que morava com ela, sofreu uma queda e precisou ser hospitalizada.
Desde o início, a situação exigiu dedicação integral. Por isso, a empreendedora decidiu colocar a loja em modo férias para acompanhar de perto os cuidados necessários.
Nos dias seguintes, o quadro se agravou. A mãe foi transferida para a UTI e, em 8 de maio, faleceu. Ao lembrar daquele momento, Sônia não esconde a dor. “Foi um grande baque, uma dor insuportável.”
Poucos dias depois, ela decidiu retomar as atividades da loja. A intenção era encontrar no mosaico o mesmo refúgio que já havia ajudado em outros momentos difíceis da vida.
“Vou colocar a loja em atividade novamente, já que o mosaico é a minha cura.” Mas, antes mesmo de concluir esse processo, recebeu outra notícia inesperada. Uma conhecida enviou uma mensagem perguntando se ela já sabia do encerramento do Elo7.
A primeira reação foi de incredulidade. “Respondi que não, que eu estava com a loja em férias, mas estava retomando naquele momento.”
Quando verificou as informações, percebeu que a notícia era real. “Foi uma punhalada. A segunda grande perda em menos de três dias.”
Além do impacto emocional, havia a sensação de ver uma parte importante da sua trajetória chegar ao fim de forma abrupta.
O desafio de migrar mil produtos sem perder 13 anos de história
Depois do anúncio do fim do Elo7, começou uma nova etapa. Para Sônia, o desafio ia muito além de abrir uma conta em outra plataforma. Era preciso transferir anos de trabalho acumulado.
Ao descrever esse processo, ela destaca os números envolvidos: “Na verdade, ainda está sendo! Migrar os mais de mil produtos, quase dois mil clientes e cerca de 1.500 avaliações não é algo que se faça do dia para a noite.”
O volume de informações exigiu tempo, organização e revisão cuidadosa. Mesmo com o apoio oferecido durante a migração, ainda havia muito trabalho pela frente.
“Mas ainda estou finalizando a revisão de cada um dos cerca de mil produtos da loja.” Além da parte operacional, a interrupção das vendas trouxe novas preocupações.
Foi um período de adaptação que exigiu paciência e disposição para reconstruir parte da presença digital construída ao longo de mais de uma década.
Entre a insegurança e a esperança no Artesanou
Sônia conheceu o Artesanou por meio de um grupo de vendedores mantido no Facebook. Foi ali que começou a acompanhar as alternativas ao Elo7 que surgiam para os artesãos afetados pelo encerramento da plataforma.
Apesar de enxergar potencial no novo marketplace, ela reconhece que o momento ainda exige cautela. Ao falar sobre as expectativas para os próximos anos, Sônia demonstra esperança, mas não esconde as incertezas que acompanham esse momento de transição.
“Eu realmente sonho com uma nova loja, agora no Artesanou, que faça tanto sucesso como a que mantive por longos 13 anos. Sinceramente, me sinto insegura nesse momento de transição.”
Para ela, construir a reputação de uma plataforma leva tempo, investimento e trabalho contínuo. Ainda assim, segue acreditando que é possível reconstruir o espaço conquistado ao longo dos anos.
O conselho de quem já precisou recomeçar mais de uma vez
Ao olhar para trás, Sônia percebe que boa parte da sua trajetória foi marcada por mudanças. Houve a venda do jornal, a mudança para São Paulo, a criação do primeiro ateliê, o retorno ao mosaico depois de anos afastada e, mais recentemente, o fim do Elo7.
Por isso, quando fala com outros artesãos que também enfrentam transformações, prefere enxergar o momento atual como uma oportunidade de revisão e crescimento. Ao compartilhar seu conselho, ela resume: “Quando uma porta se fecha, janelas se abrirão.”
Tal qual uma fênix, um dos seus produtos mais vendidos, Sônia diz que períodos de mudança também podem ser momentos para repensar estratégias, investir em divulgação, fortalecer redes sociais e experimentar novos caminhos. “É aproveitar a onda e surfar nela.”

Uma visão construída por alguém que já precisou recomeçar mais de uma vez e que continua encontrando no mosaico motivos para seguir criando.
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